terça-feira, 2 de setembro de 2008

Mais um ano

Passaram-se quatro dias. É incrivel como a supertição de acreditar em um inferno particular se faz crível a cada ano no final do maldito mês de agosto.

Todos os anos a mesma coisa. Ninguém se lembra, ninguém se importa. Não são os dias deles. É minha memória ficando mais velha. Meus antigos fracassos costurados a um novo, uma nova data apática para ser lembrada no ano seguinte.

Devo ser capaz de atrair toda a porcaria ruim da minha vida para um único dia. Por mais que não me recorde de ter sido assim num passado mais distante, tenho certeza da memória que ficou dos ultimos cinco anos.

Relacionamentos acabados.
Brigas insuportáveis com familiares.
Acidentes trágicos.

Pode contabilizar cada um. São o retrato que ganho ano após ano autografado pelo azar.

Um pouco de esperança, porém: diferente do habitual, pude compartilhar de uma variável interessante deste pesadelo. Pessoas esforçadas, lutando contra minha absoluta vontade de solidão, tornaram o fim do dia um presente agradável.

Dizem que as lágrimas são de tristeza apenas. Dor, sofrimento ou saudade. Por mais que se diga que a felicidade faça o mesmo, não consigo acreditar. Choro não por estar absolutamente feliz naquele momento. Não por estar cercado de pessoas maravilhosas que tornaram uma noite terrível em uma festa inesquecível. Minhas lágrimas são pelos anos passados. Uma mistura de todos os sentimentos ruins que sempre me invandem nesta data tão maldita.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Ilusões dos outros

Minhas raizes apodreceram no solo fértil da minha casa. Os donos de empregos maravilhosos e familias sorridentes olham com um misto de pena e desprezo o grande inútil que minha mãe foi capaz de criar. Ela chora em seu canto quieto. Acredita (engana-se) pensando em como o futuro que comprou parecerá mais atraente para seu filho.
Oportunidades. Empregos públicos. Uma esposa sorridente e submissa. Posso ler em seus olhos o que espera de mim. Vou morrer frustando-me ao enganar (acreditar) meu íntimo de que sou um derrotado profissional. Uma boa piada de salão. Um copo compartilhado com pessoas ainda na mesma situação, mas com planos muito mais concretos. Suas faces foram esculpidas em dor. A minha, em pelica. Não sinto pena das dificuldades que tiveram para conseguir um estudo impossível.
Não me compadeço de uma dor tremenda por não ter conseguido êxito em algo transformador. Minha máquina de ignorancia produz de forma industrial formas e fórmulas de explicar o porque estou além de toda essa merda que invejo. No brinquedo favorito de quem não possui nada, o verdadeiro prazer.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A vida é uma coisa maravilhosa. Sem emprego, sua unica preocupação é em sobreviver a cada dia maçante escrito por doses de cerveja e horas inertes na frente de um computador. A nova linguagem do tédio fala sobre comunidades onde posso encontrar coisas maravilhosas. A solidão passa a ser uma virtude tão imensa quanto uma viajem à Tailândia, justificada com fotos alteradas com todo o cuidado que uma fantasia pode manipular.

Você olha para os lados. Todos estão sempre indo. Um passo a frente da minha morbidez silenciosa. Eles produzem. Trabalham. Crescem. Seus carros novos são as testemunhas de aço de que estou acabado. Nunca precisei de um destes até que a primeira garota precisou de uma carona. Para isso foram criados os carros: apenas mais uma ferramenta fálica e arredondada para penetrar nas sinuosas curvas do prazer.

Nosso mundo cada vez mais liberal permite alegorias sexuais sobre mulheres dirigindo felizes seus modelos compactos enquanto atendem seus telefones coloridos. Ela olha para o lado e sorri. Seus olhos são duas lentes anti-reflexivas que fitam o horizonte, deixando-me perdido ao perceber que não posso encontrar sinceridade em janelas que não vejo. Uma música popular cantada por um grupo que não conheço faz-se ouvir. Estamos parados em um engarrafamento. A moça simpatica do compacto vermelho olha-se displicente no retrovisor. A musica cala, o telefone é atendido, um vidro se fecha e volto a minha perdida tarde.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Doses Homeopáticas

Escrevo contos. Histórias que não digo às pessoas. Finjo passa-las para o papel para a ávida crítica de um amigo leitor. Mas elas me pertencem. Não consigo desamarrar o nó que conheço o laço. É realmente complexo finalizar histórias, vidas, que fazem parte de mim. E por mais que saiba que por dentro eu apodreça e morra, minto acreditando que ainda não estou acabado. Não consigo deixar ir. Quando tudo o mais for embora e tiver esquecido, apenas essas farças que mantenho incabadas em minha falha cabeça me farão companhia.

Não é um estudo sobre identificação. Infelizmente a ciência moderna criou maneiras tão perfeitas de enquadrar cada comportamento suspeito que possuímos, que nos tornamos hipocondríacos mentais. Pessoas que passam a ser parte de algo por compartilharem de uma mesma tarja preta que seu vizinho. O incidental esbarrão na farmácia torna-se o ponto ideal para uma amizade barbitúrica. O mesmo prozac que meu pai em uma dosagem menor. Ele lutou por aquilo. É o novo respeito pelos anciões.

Preciso encontrar a minha doença perfeita. Mas meu corpo passa a me enganar com minha ignorância. Uma apendicite do lado errado do ventre. Uma virose curada com uma noite de sono. Um mês inteiro passando por médicos que não descobriam de que mal perecia me ensinou o quanto sou um paciente hipócrita. Do exato tipo que lê toda a bula procurando os efeitos colaterais mais convenientes para que possam se compadecer de mim. Essa atenção doentia que me faz estar curado dias depois de um diagnóstico negativo. Mas a ciência é brilhante. Aposto uma esquizofrenia como em alguns meses será inventada um novo tipo de doença causada por preguiça excessiva ou apatia mórbida.

Breve...

Sei que sempre cito os filmes. Mas é impossível não refletir uma vida miserável em algo tão magistralmente produzido para ser uma boneca de plástico da vida real. Pagamos para ela ser nosso sexo. Compramo-as para que não possamos perceber o quanto estamos sozinhos. ao ver de perto gente demais próxima a mim morrendo pude perceber: no fim, estamos todos por nós mesmos.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Lúcida embriaguês

Um estado de bebedeira intensa. Acho que passei tanto tempo fingindo estar assim que é como o mundo agora me parece. Estar sóbrio é o aviso que apenas você sente-se assim. A vida pode ser intensa. A vida pode ser feliz. Nada precisa ser um esquecimento. Pena que esta é somente mais uma coisa que novamente perco ao jogar no fogo da minha sonolência.

Pessoas sorriem ao meu redor. Elas nunca estão sozinhas. possuem suas vidas, famílias, empregos. Elas conseguem fingir melhor que estão sempre além. meu falsete não chega a tanto. ele esbarra na minha vontade de estar liberto destas amarras. Uma vontade tão forte que não posso me expressar. Uma vontade que me faz chorar como um idiota a cada vez que vou sozinho ao cinema. Todas as vezes que saio com um casal de amigos. Os dias que compreendo que não possuo uma fé.

Não é algo sobre deus. Um deus minúsculo, pois seria desleal enquadra-lo apenas em umas linhas de cristandade que aprendi em meus dias servindo-o. Um força grande o suficiente para nunca estar lá exatamente quando creio estar precisando. É sempre bom termos alguem para culpar por nossos fracassos, não?

sábado, 29 de dezembro de 2007

Aviso as sóbrios navegantes

Um bom jeito de escrever um história de despedida é falando sobre o tempo. Mas a vida acaba sendo uma sucessão tão grande de cliches vistos em filmes que fica dificil não começar com algo do tipo "o tempo destroi tudo" ou "era uma noite fria". Mas, infelizmente, o tempo é realmente um bastardo destrutivo. E a noite não estava fria, pois era um maldito dia de verão.

E é aqui que começo meu pequeno livreto de memórias que não tenho mais. Sou conhecido por esquecer-me de absolutamente todas as coisas uteis que possam ser utilizadas para algo relevante. Idéias originais? Não espere nada disso. Até porque isto aqui faz parte do clichê "é absolutamente algo apenas para eu ler ( que compartilharei de forma confidente com vocês" e não sobre "algo que foi deixado em minha porta a dez anos atrás".

Não espere coerencia alguma. Nem linha temporal. Quando não se tem uma memória muito acurada, as idéias e eventos apenas vem e vão. você passa a se esquecer se aquela cicatriz realmente foi ganha quando se tinha 5 ou 6 anos. Se aquele maravilhoso passeio falando sobre o tempo (ele novamente!) aconteceu quando nos conhecíamos ou depois que terminamos. São clarões temporais. Rostos apagados com uma borracha. Cores berrantes para preencher o fundo. E uma música onírica para dar a sensação de embriaguês perpétua das lembranças.